11. Política, Religião e Futebol


Não se discute política?

A parcialidade é surda
A parcialidade é cega
Quando a circunstância muda
A sensatez, ela nega

A parcialidade é fraca
E tem a cabeça dura
Para se defender, ataca
A divergência, ela censura

A parcialidade é guerra
Trata o adversário à bala
Mas quando o aliado erra
O bom senso, ela cala

A parcialidade existe
E talvez seja inerente
Mas na política ela é triste
Contraditória e incoerente

É muito engraçado ver o pessoal mais inclinado à Direita na política brasileira, antigos defensores dos roubadores, porém fazedores, se manifestarem veementemente de forma favorável à condenação dos corruptos do chamado “mensalão”. Os coniventes com a corrupção dos governantes direitistas de outrora agora são ferrenhos defensores da ética e da honestidade públicas, argumentando que “não é porque ninguém era condenado antes, que o erro deva persistir agora”.

Tão engraçado quanto, é observar o pessoal mais simpático à Esquerda nacional, tradicionais protetores da ética, da moral e da honestidade de forma inegociável, agora estar relativizando os atos de corrupção do governo de esquerda. Os rigorosos defensores da probidade sem exceções, atualmente tentam ponderar alegando que “não é bem assim, tantos roubaram e não aconteceu nada, o STF está condenando sem provas dessa vez, olhem quantos avanços este governo trouxe para o país”.

Mais interessante ainda é perceber que a conveniente miopia passional não deixa ambos os lados se conduzirem de acordo com os seguintes fatos:

Fato 1: Os avanços inegáveis trazidos pelo grupo político atual, além de seu próprio mérito, são também decorrentes inevitavelmente dos avanços ocorridos pelo governo adversário anterior, mais notadamente pela plano que trouxe estabilidade econômica ao país e pelos próprios programas sociais que serviram de base para o sistema de proteção social atual.

Fato 2: Toda a corrupção existente no governo do grupo político atual é também uma evolução clara e inequívoca do esquema de corrupção armado pelo governo adversário anterior, mais notadamente na cooptação política de partidos aliados através de loteamento de ministérios (prática iniciada e costurada pelo presidente adversário anterior) e no próprio esquema de corrupção chamado de “mensalão” cuja origem remonta a um governo do partido adversário em Minas Gerais, tendo como figura central o mesmo articulador: Marcos Valério.

Diante de tão evidente constatação de que o governo atual, com assinatura própria, tão somente aprimorou, evoluiu e agigantou tanto o sistema de proteção social e estabilidade econômica de forma elogiável, como o esquema de cooptação política através de desvio de dinheiro público, conduta execrável, (o que não lhe tira nem méritos nem culpas) fico boquiaberto ao observar o quanto – não os políticos envolvidos, que fazem parte do jogo – as pessoas comuns, cidadãos e eleitores como eu e você, defendem os lados aos quais são mais simpáticos, de forma tão intensa como se estivessem falando de faces antagônicas da moeda, como o bem e o mal, o joio e o trigo, a saúde e a doença.

Que religião e futebol não se discutem, não há a menor dúvida já que aqui estamos lidando com fé e torcida irracionais – pura paixão. E paixão é algo tão íntimo e pessoal que não tem espaço para discussão.

Posso até reconhecer que o adversário do meu time é melhor tecnicamente, mas isso não me fará trocar de clube. A paixão clubística, quase sempre, é imutável pois não é escolhida com base em bom senso e coerência. Sua origem, embora possa ser verificada por meio da influência de pais, tios, primos e amigos, uma vez incorporada, não pode ser explicada.

Da mesma forma se dá com a religião. A busca pelo conforto espiritual é tão íntima e complexa, que é difícil compreender quando e porque determinadas crenças e discursos são recebidos em nossos corações, enquanto outros não encontram guarida. O bom senso aqui só deve existir para o respeito com outras religiões. Mas tentar escolher e debater qual a melhor religião é impossível.

Mas política, não. Por que ser passional com política? Política não deveria ser vista com os olhos da razão?

É claro que líderes carismáticos sempre existirão, mas acho que é necessário se desvincular de pessoas e siglas para nos concentrarmos em idéias e valores.

Se tivermos claramente definidos os critérios que norteiam nossas preferências políticas, estaremos menos sujeitos a cair na constrangedora contradição de defender o indefensável, ponderar o imponderável. Correremos menos riscos de fazer um contorcionismo argumentativo para enquadrar uma conduta condenável daqueles para os quais somos simpáticos como algo tolerável ou de criticar práticas elogiáveis de nossos desafetos.

Se tivermos clareza sobre quais idéias e valores são importantes para nós, ficará mais fácil identificar os traidores desses ideais e ficaremos à vontade de reconhecer que aquele líder não é admirado mais, ou que não vestimos mais a camisa daquele partido.

Até porque, o momento político brasileiro nos mostra que partidos e pessoas estão cada vez mais parecidos e cada vez menos leais a nortes ideológicos.

Agora, é preciso ressaltar que a fidelidade ideológica nos deixa com a sensação de estarmos isolados numa ilha deserta de opções a cada nova eleição.

Nesse sentido, aí sim temos que fazer um enorme esforço para estabelecer critérios que nos permitam decidir entre o muito ruim e o ainda pior. Mas ainda assim, acredito ser esse o caminho, pois a omissão ilustrada pela abstenção, voto branco ou nulo, motivada por uma desilusão inevitável, pode parecer falta de coragem para fazer uma escolha difícil, uma vez que na prática, a omissão representa apenas a ação de delegar aos outros membros da sociedade a função de decidir.

Sds,

Hugo

PS 1: É claro que na hora de escolher entre o corrupto e o desonesto, entre o incompetente e o ineficiente, entre o branco e o alvo, entre o por do sol e o crepúsculo, a empatia (ou qualquer outro sentimento irracional) entrará em campo, para solucionar o dilema. Mas aí, devemos apenas estar atentos para não justificar a escolha por critérios objetivos para os quais teremos que fazer o contorcionismo argumentativo frágil. Melhor assumir que diante de opções gêmeas, preferimos a mais simpática ao nosso coração.

PS 2: Espero, por um certo momento, deixar um pouco de lado o tema “política”, fechando com o presente texto a trilogia sobre o tema que dominou este espaço nas últimas três semanas.

PS 3: Pequenos desencontros logísticos de uma semana atípica (adoro palavras proparoxítonas) determinaram o primeiro atraso do blog em 11 semanas. De forma nunca vista antes na história desse país ;), hoje, às 17h20, o texto não estava aqui. Paciência. Não deveria acontecer, mas já que aconteceu, vamos em frente. Tarda. Mas não falha.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

POR QUE NÃO TENHO (TANTA) RAIVA DE LULA?

UMA TRAGÉDIA CHAMADA LULA

IMPERTINÊNCIA