27. Ciclo

Então chegou o carnaval
Quase nada é proibido
Dança, álcool, bacanal
Festa dos excessos permitidos

Mas depois vem a quaresma
Pros católicos, penitência
Para outros, dias de dieta
Muito trabalho e abstinência

Tempo de concentração
O inverno exige outra atitude
Cautela e introspecção
Aguardando que o clima mude

Até pintar outra atmosfera
Cores e bichos saem da hibernação
A chegada da primavera
Anuncia que dias melhores virão

A celebração ganha intensidade
Momento de muita vida social
Parentes e amigos de volta à cidade
Encontros, festejos, ceia de natal

A festa prossegue e chega ao pico
Estranha mistura de clima e religião
Só pra convencer que nesse louco ciclo
O carnaval é quem fecha o verão

E chegou o carnaval. Fechando mais uma etapa desse ciclo anual, concluindo o verão.

É, eu sei que ainda falta mais de um mês para o fim oficial do verão, mas convenhamos que o carnaval é quem fecha essa fase.

Aliás, passei a ser um admirador dos ciclos. Tenho gostado de observar e assimilar como certos fenômenos se sucedem numa ordem determinada.

Durante um ano, concluído o carnaval/verão, a tendência geral é o país se concentrar no trabalho, na produção, na responsabilidade. O foco passa a ser mais a seriedade e concentração em tarefas do que nas festividades e confraternizações que começam lá por dezembro. Mais introspecção e menos vida social.

Somente no final de setembro, início de outubro, começaremos a sentir um clima de maior festividade no ar novamente, começaremos a nos preparar para o Natal, Réveillon, janeiro, e, mais uma vez, o carnaval. É na virada de setembro para outubro que os cuidados estéticos com o corpo se intensificam, que se começa a programar a volta para a cidade natal no Natal, onde e com quem será a passagem do ano, começa-se a especular o que fazer em janeiro.

Acho bem interessante a forma como nos condicionamos em relação a esses ciclos.

Começaremos agora a ouvir que “agora o ano começa”, e de fato, algo muda no inconsciente coletivo. É hora de deixar para trás as extravagâncias gastronômicas, comportamentais, alcoólicas para um período de maior recolhimento. Conheço muita gente que aproveita o fim do carnaval para fazer uma espécie de quaresma ficando sem beber e administrando uma dieta mais rigorosa até o período da páscoa, independentemente do significado religioso da quaresma em si.

Uma rápida olha no dicionário identifica quaresma como o período “destinado pelos católicos ortodoxos à penitência”. Mais do que punição, de certa forma aqueles que usam a “quaresma” para se livrar dos excessos do verão não estariam de qualquer modo buscando “purificação”?

Vejamos também como o Dicionário Aurélio conceitua o carnaval:

1. No mundo cristão medieval, período de festas profanas que se iniciava, geralmente, no dia de Reis (Epifania) e se estendia até a quarta-feira de cinzas, dia em que começavam os jejuns quaresmais. [Consistia em festejos populares e em manifestações sincréticas oriundas de ritos e costumes pagãos, como as festas dionisíacas, as saturnais, as lupercais, e se caracterizava pela alegria desabrida, pela eliminação da repressão e da censura, pela liberdade de atitudes críticas e eróticas.]

É curioso como vivemos nossas vidas atuais, repletas de tecnologia e informação, um tanto alheios para a consciência de que continuamos seguindo tradições milenares da humanidade.

Parece que o ser humano precisa de um período no ano para agir sem tantos filtros e repressão moral. Um período para extravasar desejos e fantasias. Parece que a própria religião reconhece e avaliza essa necessidade. Mesmo que depois cobre um período de penitências.

***

Às vezes eu gostaria de viver num lugar onde as estações do ano fossem mais definidas. Acho bonita a forma como a natureza se impõe sobre o homem e como o homem se adapta à natureza.

Em lugares de estações mais rigorosas, em tempos mais remotos, o outono, era o período de concentração no trabalho e colheita para acumulação de mantimentos para a passagem do inverno. Momento em que as pessoas e animais se resguardam, pouco saem de suas tocas diante das condições climáticas adversas.

Ao final do inverno, início da primavera, a temperatura começa a ficar mais agradável e a vida social recomeça, com o clima de festividade ganhando intensidade aos poucos. Entra o verão e a alegria é plena. O clima quente favorece a curtição sem tanto rigor com tarefas cotidianas, chegando-se ao auge da euforia, festejando-se o momento da fartura enquanto não começa o período de menos descontração que está por chegar, o outono. Momento em que é preciso deixar o lazer de lado, focando mais no trabalho para obtenção de provimentos suficientes para a passagem do inverno.

***

Não vivemos num país de estações do ano definidas com um inverno rigoroso. Estamos num estado de espírito focado na busca de liberdade e felicidade que parecem transformar o ano todo numa festa de carnaval. Mesmo assim, inconscientemente, parece que assimilamos o ciclo da natureza e nos pautamos de forma similar que muitos animais se relacionam com os ciclos naturais.

Eu sei que o texto acima pode carecer de precisão técnica, científica e de pesquisa. As diferenças dos períodos das estações do ano entre os hemisférios Norte e Sul, por exemplo, deve influenciar o modo como os grupos sociais vêem o Natal e o Carnaval. Mas, de certa forma, acho que é meio por aí.

Que vivamos, portanto, o auge do período de descompromisso e euforia para que logo depois possamos iniciar uma outra etapa, com outra cor e clima tantos internos quanto externos.
 
Sds,

Hugo

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