7. Referências

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Qual o limite entre a inspiração, a referência e a imitação?

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Tudo se copia
Tudo é imitação
Ou todo aquele que cria
Tem fontes de inspiração?

Como ser original
Como a palavra pede
Se todo passo inicial
Tem algo que o precede?

Qual seria o limiar
Entre o que é referência
E o mero copiar
Sem qualquer inocência?

Em tese ou dissertação
Pra vencer a linha frágil
É só fazer a citação 
Para não cair em plágio 


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Começo esse texto, fazendo um breve relato.

As bandas da minha adolescência foram Engenheiros do Hawaii e Legião Urbana. Mas muito mais a primeira do que a segunda.

Conheci Engenheiros através de um amigo do prédio, em 1991, com 13 anos. Sempre fui um pouco mais atrasado para alguns ciclos da vida, como o desenvolvimento do hábito de ouvir música, por exemplo. Enquanto os amigos de prédio, com idade semelhante à minha, ficavam horas ouvindo bandas de rock enquanto lavavam os carros dos pais para ganharem uns trocados, eu, cujo pai não era adepto da modalidade de remuneração filial, só pensava em jogar bola.

Mas a partir de uma fita k7 (modalidade pré-histórica de armazenamento de áudio) gravada por um vizinho (não lembro se foi um pedido meu ou uma iniciativa dele) com os principais “hits” dos Engenheiros, me apaixonei à primeira ouvida pela banda.

Fundada em 1985, pelos estudantes de arquitetura Humberto Gessinger, Marcelo Pitz e Carlos Maltz, os Engenheiros do Hawaii, na época em que os conheci, tinham a seguinte formação (com a qual ficariam mais conhecidos): Humberto, compositor de todas as letras e da maioria das melodias, além de baixista; Augusto Licks, guitarrista e Maltz, baterista (o fundador original, baixista, Pitz, saiu da banda após a gravação e turnê do primeiro disco, por não ter curtido/aguentado a vida de músico amador/profissional).

Além da sonoridade da banda, que eu julgava original e de qualidade superior às outras bandas de rock do cenário nacional, sempre muito fã das letras do Humberto. Tanto forma como conteúdo me fascinam. Gosto muito das reflexões profundas de suas letras por meio de uma roupagem simples, recheada de aliterações.

“Somos quem podemos ser, sonhos que podermos ter” é maravilhoso. “O pop não poupa ninguém” é super atual, apesar de ser de 1990. “Um dia super, uma noite super, uma vida superficial” de 91, tão atual quanto.

Questões contemporâneas em linguagem pop.

Assim, a partir de 91 virei um admirador atento da banda, comprando todos os discos anteriores à minha descoberta e todos aqueles que viriam a ser lançados.

Mas entre 93 e 94, um baque para os fãs.

Uma briga feia determinou a saída do guitarrista Augusto Licks. Rolou uma baixaria na época, com direito a declarações desaforadas em jornais e briga judicial pelo nome da banda.

Continuaram os fundadores Gessinger e Maltz, que incorporaram ao grupo três novos integrantes (entre eles, Fernando Deluqui, ex-futuro-atual RPM).

Com essa formação gravaram um disco que foi muito bem no mercado musical, com um grande hit tocando em todas as rádios do país: A Promessa (“o céu é só uma promessa, eu tenho pressa, vamos nessa direção”). Mas algo aconteceu ali. Pela primeira vez um outro integrante da banda teve uma letra de sua autoria gravada no disco: Carlos Maltz.

O baterista tosco e cabeludo que sempre ficou atrás de todos no palco começava a querer ter voz, literalmente – ele cantou a música no disco e a cantava nas apresentações.

Parece que Humberto não curtiu muito a interferência de outro letrista nas composições. E Maltz não queria mais ser “apenas” o baterista.

E aí, então, mais uma separação. Dessa vez mais profunda, pois se a saída de Licks em 94, já representava a perda de 1/3 dos membros da formação mais conhecida, a cisão entre Humberto e Carlos representava efetivamente o fim da banda. Era 1996.

E foi o que ocorreu: Humberto fundou o Gessinger Trio e Carlos, A Irmandade. Nenhuma das bandas conseguiu grande atenção do público, sendo que pouco depois, Gessinger entrou em acordo com Maltz para utilizar o nome “Engenheiros do Hawaii” novamente enquanto Maltz, após gravar mais um disco solo, partiu para uma busca mais profunda de auto-conhecimento: primeiro se tornando astrólogo, e mais tarde, psicólogo.

Os anos foram passando com os Engenheiros – na verdade, a carreira solo de Humberto – seguindo em frente, enquanto Maltz sumiu do mapa (astral?).

Até que em mais um disco dos Engenheiros, Maltz reaparece como parceiro na letra de uma música com o Humberto. O reencontro dos fãs dos Engenheiros com Maltz, também representou o reencontro entre os dois co-fundadores, que após anos de total falta de contato, voltaram a se relacionar. Desde então, Maltz é figurinha fácil em quase todos os projetos que Humberto gravou, numa parceria de letras e vozes até mais profunda do que aquela que tinham como vocalista e baterista.

Com o reaparecimento de Maltz através dos Engenheiros, descobri que ele tinha site muito interessante sobre astrologia. Ele falava do tema de uma forma muito original e didática. Enquanto isso, Humberto passou a se aventurar no mundo literário, escrevendo um livro infantil sobre o Grêmio, seu time de coração.

Todo esse imbróglio é apenas para contextualizar sobre minhas maiores referências atuais no recente exercício de escrita semanal. Não me sinto à vontade de prosseguir escrevendo sem mencionar tais referências, pois muito do que tenho escrito hoje e da forma que tenho escrito vem desses dois caras.

Depois do livro infantil, Humberto já escreveu mais três livros. Dois deles mais especificamente sobre passagens da banda: “Pra Ser Sincero e Mapas do Acaso”; e o último num formato de crônicas, chamado “Nas Entrelinhas do Horizonte”.

Assim, além de todas as músicas compostas e dos livros escritos, na forma também, este meu blog bebe muito do Humberto: ele escreve um blog, semanalmente: http://blogessinger.blogspot.com. Obviamente, que recomendo a leitura. A pontualidade britânica na postagem dos textos e própria configuração estética do meu blog imitam descaradamente o blog dele.

Em paralelo, Carlos Maltz também passou a produzir bastante. Escreveu um livro chamado “Abilolado Mundo Novo”, tem um site em que conta toda sua história, www.carlosmaltz.com.br, e um blog, através do qual, inclusive, Humberto começou a escrever suas primeiras crônicas:  http://abiloladomundonovo.blogspot.com.br/.

Mas a maior fonte de inspiração que Maltz tem me servido se dá através do twitter, onde quase que diariamente ele trava diálogos com seus “seguidores” a respeito dos mais diversos temas e questões. Sua forma de ver a vida tem me inspirado bastante (@carlosmaltz).

Não poderia seguir escrevendo sem mencionar minhas atuais maiores fontes de inspiração, referência e imitação. É claro que tudo que nos rodeia, tudo que já vivemos, cada frase lida, nos dá subsídios para o que queremos externar. Mas atualmente, essas duas fontes são explícitas demais para não serem devidamente mencionadas.

É obvio também que desejo ser sempre original. Mas acredito que a originalidade virá justamente da minha forma de absorver e propagar mensagens que me tocam, através dos meus filtros pessoais.

Sds,

Hugo

PS 1: Semana que vem escreverei sobre a música do mês de setembro: “Seguro”. Toda vez que mando o roteiro para a elaboração dos arranjos de uma música para o parceiro arranjador Yonsen Maia, ele me pede uma referência. Para conceber o arranjo de Seguro, parti de uma base de uma música dos Foo Fighters (banda liderada pelo ex-baterista do Nirvana, Dave Grohl, que tem um som de rock pesado, inspirada no próprio Nirvana) fundindo com elementos de Jerry Lee Lewis, pianista norte-americano dos anos 50/60, considerado um dos pioneiros do rock. Será que a soma entre duas referências distintas não geraria um resultado original? Semana que vem, vamos tirar a prova aqui.

PS 2: É sabido que o escudo do Bahia foi inspirado no do Corinthians. Sem os remos e a âncora, ficaram a configuração do círculo com o nome e a data de fundação e a bandeira no centro, somados com as cores do Estado da Bahia. Depois de explicada, fica clara a inspiração, mas quem ignora o fato garanto que não percebe facilmente a relação entre os escudos.

PS 3: Depois de um tempão que já me considerava admirador das letras de Humberto Gessinger, descobri que muitas frases suas como “o exército de um homem só”, “a dúvida é o preço da pureza”, “a medida de amar é amar sem medida” na verdade não eram suas. Eram citações explícitas de escritores e pensadores como Moacyr Scilar, Jean Paul Sartre, e Santo Agostinho, respectivamente.

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