22. Ponto de Virada


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Ponto de virada radical
é possível, difícil e improvável
a expectativa irracional
e a decepção inevitável

novo ano, tudo velho em janeiro
a espuma do champanhe do réveillon
se esvai logo após virar o ponteiro
que anuncia a chegada do ano bom

e as promessas e projetos empolgantes
que fariam do ano novo um ano incrível
se embaralham com a rotina desgastante
e logo viram fogo de palha invisível

mas ano novo pode ser sim novo ano
com um misto de cautela e ousadia
metas viáveis fazem um audacioso plano
pra conseguir alcançar o que queria 
   
Certa vez numa conversa sobre filmes de Almodovar, comentei que, para mim, os filmes dele não tinham nem início nem fim, era tudo "meio". A esposa de um primo que fazia parte da conversa e que acompanha, gosta e já viu muito mais filmes do diretor do que eu, disse, às risadas, que eu tinha dado a melhor definição para os filmes do espanhol que ela já tinha visto.

Aprendi num curso de roteiro de teledramaturgia que me meti há alguns anos, que normalmente o enredo de uma história se desenvolve a partir de um ponto de virada. Funcionaria mais ou menos assim: a história começa apresentando a vida dos personagens dentro de uma estabilidade. Em determinado momento, acontece algum evento que tira os personagens daquela estabilidade, passando a conduzir todos os desdobramentos a partir de então. Passei a observar  e a tentar identificar em cada filme que assistia, quais os pontos de virada que davam rumo à história.  Nos filmes de Hollywood, eles são mais evidentes. Tomando como referência uma história conhecida, imagine que no filme "Titanic", o ponto de virada se daria quando a personagem de Kate Winslet, Rose e Jack (Leonardo Dicaprio) se conhecem.

Através do meu limitadíssimo conhecimento sobre roteiros e enredos, acho que Almodovar apresenta em seus filmes "pontos de virada" mais sutis ou menos tradicionais. A minha impressão é que suas histórias não sofrem uma virada logo no início ou mais explícita: ele apenas vai contando o que está acontecendo na vida dos personagens e encerra o filme sem grandes desfechos. Ou às vezes, os pontos de viradas na verdade aconteceram antes do início do filme - o que destrói a lógica do formato de roteiro que aprendi no curso.

Pois o equilíbrio entre os pontos de viradas tradicionais e a narrativa contínua de Almodovar é a forma que acho que devemos encarar o início de um novo ano.

Muitas vezes, os planos e promessas mais mirabolantes imaginados nos últimos momentos do ano que finda se tornam frustração diante da percepção que no dia 02 de janeiro tudo segue como dantes. Porém, a consciência de que o início do ano novo nada muda de fato, em vez de trazer um esmorecimento na vontade de transformar tudo aquilo que queríamos ver diferente, deve ser o combustível para conseguirmos, dessa vez, ver no mundo real tudo aquilo que idealizamos no mundo das idéias.

Ou seja, vislumbrar viradas radicais demais para o ano que se inicia certamente ensejará um sentimento de decepção ao cair a ficha que a vida segue e nada mudou. Por outro lado, não podemos desconsiderar que o princípio de um novo ciclo traz um poder motivador que pode e deve ser usado como energia para a promoção das transformações que queremos ver em nossas vidas. 

A consciência de que nada muda como num passe de mágica é a senha para projetarmos metas viáveis e desejos possíveis. E assim conseguir aquilo que se ambiciona. Nem tanto Hollywood, nem tampouco Almodovar, portanto.

De qualquer forma, vale a dica de uma citação recorrente em redes sociais, mas que por isso não perde seu sentido lógico e profundo: é mais difícil (e menos inteligente) conseguir resultados diferentes através das mesmas atitudes. Se existe alguma coisa na qual podemos provocar mudanças, é sobre nós mesmos. E assim, quem sabe, transformar o mundo exterior.

Desejo assim que no ano que se inicia, dentro dos limites do que é possível se transformar, possamos desenvolver todos os pontos de virada que vislumbramos para nossas vidas.

Sds,

Hugo

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