23. Brincando com a ficção II - O Aniversário.

fonte da foto: http://vejario.abril.com.br/blog/bruno-chateaubriand/tags/bolo-de-aniversario


Ele acordou de sobressalto, como todo dia, ao barulho irritante e implacável do despertador. Abriu os olhos espreguiçando-se e instintivamente a procurou do lado direito da cama. Porém, diferentemente do usual, ela não estava ao seu lado.
 
Ainda sonolento, virou o corpo de modo a ficar com a barriga para cima, olhando para o teto, em um estado de semi-consciência. Também diferente do costumeiro, as crianças não entraram no quarto em disparada, se jogando na cama ao ouvirem o primeiro ruído do rádio-relógio.
 
Ainda sem conjecturar razões objetivas para esposa e filhos não estarem presentes na cama naquela manhã, já que não era tão raro ela levantar antes dele e ás vezes os meninos se entretinham com alguma brincadeira antes de invadirem seu quarto, ele começou a refletir.
 
Era seu quadragésimo aniversário e um sentimento de desconforto pairava no ar. De repente parecia que nada fazia muito sentido.
 
No trabalho, não estava ganhando o quanto achava que seu comprometimento e sua qualidade técnica mereciam. Andava indignado com algumas decisões recentes de seu chefe e contrariado com a mudança estrutural que estava em curso na companhia nos últimos meses. Atolado de trabalho, sobrava pouco tempo para realizar a atividade física que seu corpo precisava tanto, e o aumento de algumas taxas e – mais explicitamente - da barriguinha, denunciavam que como estava não poderia continuar.
 
Além disso, o último ano tinha sido difícil também no campo familiar. Particularmente naquele ano, houve perdas de familiares muito próximos, o que o deprimia ainda mais. Naquele momento concluía que a tendência era só piorar, pois à medida que estava ficando mais velho, seus parentes iam envelhecendo também.
 
Seu núcleo familiar mais restrito, esposa e filhos, seu porto seguro ao final de cada dia estressante, também não parecia mais o mesmo.
 
Da relação com os meninos não tinha do que reclamar. Tinha um casal de crianças gêmeas – conseqüência de um tratamento de fertilidade bem sucedido – saudáveis, inteligentes e carinhosas.
 
Mas o relacionamento com a esposa não andava tão bom quanto já fora. Apesar da consciência de que relações matrimoniais duradouras não conservam o vigor e intensidade dos tempos de namoro, sempre se perguntava se tinham mesmo que se contentar com aquela apatia. O nascimento das crianças não permitia que fizessem as viagens a dois tão revigorantes para a relação com que estavam acostumados e ele mesmo reconhecia a sua própria preguiça em buscar métodos e artifícios que estimulassem a paixão entre os dois.
 
Os pensamentos começavam a levá-lo para o questionamento se uma outra vida não seria possível, quando abruptamente a porta do quarto se abriu: sua esposa, filho e filha entraram de repente sorrindo, cantando “parabéns para você”, ela com um bolo com 40 velas acesas e os pequenos com chapéus de festinha de aniversário e línguas de sogra às bocas.
 
Jogaram-se todos na cama e tudo voltou a fazer sentido outra vez.

Sds,

Hugo
  PS 1:

É
A rotina desanima
Vida real não é brinquedo
O dia a dia quebra o clima

É
Nem sempre dá pra ter paixão
O equilíbrio é o segredo
Viver com asa e pé no chão

É
O foco muda com o tempo
É natural sentir um medo
Mas logo percebe o alento

Não
Não é para se acomodar
Se for mudar, ainda é cedo
Só saiba o que quer buscar

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