45. Neutralidade Infernal

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Os lugares mais sombrios do inferno
Para quem em tempo de crise moral
Escolhe preservar interno
Seu poder de ser crucial

Mantendo-se neutro quando
Poderia fazer diferença
Em público se manifestando
Contra o que atente à sua crença

Se omitir seria então pior
Do que agir de forma vil?
Merecendo o castigo sem dó
Do inferno, o lugar mais sombrio?


"Os lugares mais sombrios do Inferno são reservados àqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise moral"

É com essa frase forte, de autoria de Dante Alighieri, que Dan Brown, autor do super best seller "O Código da Vinci" abre seu mais novo romance, "Inferno".

Não pretendo falar sobre a obra literária de Dan Brown, que estou na fase final de leitura, mas sim da frase.

Quando a li logo na abertura do livro, me senti profundamente tocado por ela. Justamente porque, pessoalmente, tenho tentado agir com uma postura cada vez mais contundente em relação aos valores que acredito.

Constantemente, nas situações mais corriqueiras, nos deparamos com eventos em que covardia, injustiça, humilhação, desonestidade, falta de respeito, mentira podem acontecer diante dos nossos olhos. Muitas vezes, por medo de represálias ou até mesmo por pura preguiça, passamos batidos pela ocorrência sem nos posicionarmos em favor do que acreditamos.

Seja num grupo de trabalho, em que um eventual erro ou má conduta é atribuído de forma injusta exclusivamente a um dos responsáveis ou na turma do futebol semanal, cujas regras de divisão dos times ou de tolerância no horário de chegada para participar da primeira partida mudam a cada semana a depender de quem grite mais alto, acredito que fui transformando uma conduta muitas vezes omissa em uma postura cada vez mais ativa. Justamente pela crescente intolerância em presenciar atitudes incompatíveis com princípios éticos que defendo.

Os dois exemplos singelos servem apenas para pontuar que o posicionamento em questões pode se dar nas ocasiões mais simples e cotidianas.

Nesse sentido, um elemento da frase chama bastante atenção: é aos que permanecem neutros, e não aos protagonistas antiéticos, que os lugares mais sombrios do inferno estariam reservados.

Deixo em aberto a reflexão sobre porque os neutros seriam piores do que aqueles que praticam a imoralidade propriamente dita.

***

Na última semana o povo brasileiro se viu diante de uma decisão, no mínimo, inusitada, da Câmara dos Deputados. Um dos seus membros, após anos de tramitação legal no Poder Judiciário, foi finalmente preso, condenado em última instância por crime de corrupção.

Após um debate institucional entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, ficou estabelecido que a condenação não implicaria na perda automática do mandato do deputado criminoso. Esta, só seria formalizada em sessão da Casa Legislativa, para não ferir o princípio constitucional da separação de poderes.

Pois bem, na sessão prevista para a votação da perda do mandato do deputado presidiário, decidiu-se pela NÃO cassação do bandido, que, assim, continua sendo deputado, apesar de preso em regime fechado numa penitenciária do país.

A Câmera tem 513 deputados, que se posicionaram das seguinte forma, de acordo com o que li na imprensa:

233 votaram a favor da cassação;
131 votaram contra;
54 não estiveram presentes;
50, embora presentes, simplesmente não votaram;
41 se abstiveram formalmente;
4 obstruíram a votação (algo que nem sabia que existia. O cara registra sua opção, mas o voto não é computado...)

O interessante disso tudo foi notar que a opinião pública imediatamente caiu em cima dos 104 deputados que não votaram. Muito provavelmente porque era muito mais fácil identificar os que não votaram do que os que votaram contra a cassação, já que o voto era secreto.

Mas a consciência de que faltaram apenas 24 votos para a cassação e que 104 deputados não votaram, sendo que destes 50 (!) estavam ali presentes,  e mais 41 se abstiveram, talvez faça a frase de Dante, citada acima, ter sentido.

Pois a neutralidade em momentos de crise moral é uma grande covardia. É uma papel assinado em branco a favor da imoralidade deixando ser uma neutralidade

No caso em questão, por exemplo, quem seria pior? Os que votaram contra a cassação ou os que se omitiram?

Pra quem você reservaria os lugares mais sombrios do inferno?

Sds,

Hugo









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