A CONFUSÃO DO ASSÉDIO



Ih... a repercussão do protesto das atrizes americanas no Globo de Ouro deu muita confusão. Catherine Deneuve liderou a publicação de um texto que contestava a postura das feminististas americanas, condenando o puritanismo de alguns que se valiam do movimento para limitar a liberadade sexual...Feministas francesas, em apoio às atrizes americanas, e em oposição à francesa Catherine escreveram um manifesto para o Le Monde.

E agora virou uma discussão ideológica com gente atirando pra tudo que é lado.

Essa grande confusão, para mim, é fruto de um enorme mal entendido. Se fossem descritas situações práticas de condutas masculinas para com as mulheres certamente a grandissíssima maioria concordaria com o que é legítimo, meramente inconveniente ou terrivelmente condenável.

Vou me arriscar a expor minha forma de ver, consciente de que é uma visão masculina da história. Aceito contestação.

O "x"da questão para mim tem a ver com a possibilidade da mulher poder expor sua vontade da forma mais livre possível. Nas situações em que a mulher poder dizer o que quer (sim ou não), no máximo haverá uma grosseria ou falta de educação. Quando ela não puder, há assédio, agressão ou até o estupro, obviamente.

Uma simples paquera, o cortejar, acho que todo mundo entende o que é e não há problemas quanto a isso. A agressão física ou estupro, o forçar físico para alguém se sujeitar a algo que não faria sem ser forçado, também não suscita maiores polêmicas e deve ser condenado por todos.

O problema está em outras situações, de limites mais tênues, que eu acho que está confundindo todo mundo. Vamos lá:

1. Maria, empregada de uma empresa, está trabalhando no computador e o dono da empresa, seu superior hierárquico, começa a massagear seus ombros. A mulher pode ter nojo, raiva, não querer essa massagem de jeito nenhum. Mas pela relação de poder envolvida, por ter medo de perder o emprego, ou a promoção, ela pode acabar tolerando aquilo. Isso é assédio.

Agora, imagine que Maria é universitária, estudando na biblioteca e seu colega de curso começa a massagear seus ombros. Maria certamente não terá problemas pra dizer, se quiser, "ei, sai pra lá, largue minhas costas". Desde que diante dessa negativa, o colega pare, não estamos diante de assédio. Nem de nada. Só de uma tentativa de massagem.

Outro caso:

2. Maria está andando na rua e dois homens se aproximam. Um deles fala em seu ouvido: "queria você toda nua pra mim agora". Pelo fato de estar num ambiente inseguro, Maria fica com medo dessa abordagem. Ou vai sair correndo, ou vai sair andando devagar morrendo de medo de qual será a próxima ação do homem. Ele pode ficar violento. E fisicamente em geral, homens são mais fortes que mulheres. Isso é assédio.

Agora, Maria está com as amigas numa boate, privada, com seguranças à vista, e um cara chega no seu ouvido e fala a mesma frase: "queria você toda nua pra mim agora". Certamente Maria dirá: "sai daqui seu otário, tá maluco". Ela tem a consciência que se o cara continuar ela poderá chamar o segurança que vai adverti-lo, ou simplesmente botá-lo para fora. Até aí, não há assédio. Só falta de educação e grosseria.

3. Mais um:

Maria está conversando com João numa ambiente discreto. João quer beijar Maria mas Maria diz que não. Ela diz que vai ao banheiro, ele a puxa pelo braço... Ela dá uma risadinha... e fala: "Deixa eu ir.. "... Ele a envolve pela cintura e tenta dar um beijo... Ela vira o rosto negando e sorrindo... "Menino..."

Congela a ação. Até agora não aconteceu nada, nada demais. A partir daí, duas possibilidades:

a) Maria dá um sorrizinho, se deixa levar, e beija João. Pronto. Tudo normal.

b) Maria olha séria para João, muda a postura e dá um NÃO enfático e contundente para que ele a solte.

Se João largar Maria, Tudo ok. Mas se João continuar a segurá-la e insistir estaremos diante de um assédio. Que pode virar agressão ou até estupro..

Acredito que o protesto das atrizes de Hollywood tenha mais a ver com a primeira situação descrita. Quando o produtor ou diretor de um filme, que é quem tem poder num set, paquera, aborda, corteja uma atriz aspirante ao papel de um filme. Para não perder o papel, elas se sujeitam a situações que não se sujeitariam caso não houvesse a relação de poder. E o cara faz sabendo disso e se aproveitando dessa posição.

E tenho para mim que o alerta feito por Catherine Deneuve, foca nas ações de livre paquera em geral, ainda que seja uma paquera mais contundente, com elementos físicos, como puxar, segurar. Até certo limite, é aceitável.

Não percamos de vista que o paquerador é quem procura, corteja, insiste. Em alguns momentos, a argumentação de algumas feministas em casos de assédio também parece exagerada, querendo punir algumas investidas um pouco mais contundentes do paquerador, transformando a paquera numa ato burocrático desconectado da realidade.

Talvez a gente Só precise de um pouco mais de bom senso e sensibilidade para enxergarmos que concordamos muito mais do que discordamos.

OBS 1: os casos descritos permitem infinitas variações. Poderão haver lindos casos de amor entre chefes e subordinadas, assim como casos de assédio em ambientes aparentemente seguros, a partir de algum componente de desequilíbrio na relação homem x mulher não prevista nos exemplos.

OBS 2: tudo aqui foi tratado diante da perspectiva do assédio/paquera de um homem para uma mulher. Mas guardadas as devidas proporções, podemos variar para mulher-homem ou entre homens ou entre mulheres. Lembremos que Kevin Spacey perdeu o papel numa série de TV premiada por causa de denúncias de assédio feitas por outros homens.

fonte da foto: http://style.corriere.it/wp-content/uploads/2018/01/oprah_deneuve.jpg

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